VERY-LIGHT
VERDE
Asas da Aviação Civil

O nosso very-light verde vai para o Cte. Melo Correia, Presidente da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea pela sua denúncia do que se tem vindo a passar no mercado de trabalho aeronáutico.
(Editorial da última "Sirius" Magazine).


Uma Companhia do Além

A cena passa-se no ano 2010.
Um candidato a piloto apresenta-se a concurso numa companhia aérea nacional. O entrevistador pergunta ao candidato:
- O senhor tem a certeza que quer mesmo concorrer?
- Mas porquê, será que mudaram as regras do concurso? - responde o pretendente.
- Efectivamente, houve uma pequena alteração. A partir de agora, cada candidato a piloto desta companhia tem de entrar com 100.000 euros, quantia essa que se destina a perfazer a verba necessária à compra de novos trens de aterragem para os aviões - esclarece o entrevistador.
- O senhor deve estar a brincar comigo. Sou candidato mas não sou parvo. Isto parece-me mais um tributo, um imposto sobre a profissão ou coisa assim - responde, incrédulo, o aviador.
- Consta para aí que é para pagar o curso do avião...
A cena pode parecer do além mas, se recuarmos alguns anos, poucos, não fica muito para lá da realidade. Eu explico. Nos dias que correm, para além da TAP e da AEROCONDOR, a maioria das companhias nacionais admitem pilotos desde que os mesmos, e permita-me aqui um modo de expressão tão brejeiro a condizer com a atitude de tais companhias, "entrem com algum".
Isto é. Para além de não contribuírem com coisa nenhuma para a formação profissional de um piloto que já gastou uma fortuna a tirar a sua licença comercial, ainda lhe vêm pedir que pague o curso do avião a que se candidata nessa companhia. Está difícil a vida. Mais difícil está porém para os aviadores quando confrontados com este novo espírito de gestão que, para algumas coisas, os acha diferentes dos outros trabalhadores.
É assim, à custa dos seus aviadores, que uma companhia voa melhor.
Sempre foi assim afinal. Nas minhas memórias busco as lembranças já cheinhas de pó, não por serem velhas mas pela luta e principalmente pela agitação que os aviadores sempre provocam.
Chego à conclusão de que esta sempre foi uma profissão para tipos ricos ou filhos de pais com posses e, a certos tipos de gestores até fica bem, tal como fazia o Robin dos Bosques, subtrair aos ricos para dar aos pobres.
Depois dos "gloriosos malucos" afinal, sobrou a elite e com ela a diferença com que temos de viver. Só que efectivamente há uns mais diferentes que os outros e, claro está, menos ricos.
No limiar do século XXI há, porém, quem não veja a diferença e se sinta bem no seu papel de homenzinho vestido de verde, com chapéu e pena na cabeça e de arco e flecha na mão. O importante, na realidade, é voar e o aviador até gosta. Porque não pagar também por isso?
Já vejo o entrevistador mover-se inquieto na cadeira... O candidato tarda em responder.
Resolve arriscar.
- Pode pagar o curso a prestações...
O aviador sorri. Mais aliviado, quiçá reconhecido, aceita. Não vai ser por ele que a companhia vai deixar de voar.

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