"Forum Aeronauta" sobre os
Pilotos da Força Aérea Portuguesa


Patrícia Isabel de Azevedo Bento
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CARTA ABERTA AO Sr. MINISTRO DA DEFESA E AO C.E.M.F.A.

Torres Novas, 15 de Novembro de 2000

A história da minha vida como esposa de um piloto da FAP (no essencial igual à de muitas
outras...).
Comecei a namorar com o meu actual marido tinha eu 15 anos, ele 16. Aos 18 anos ele
consegue ser admitido para a Academia da Força Aérea; era o seu sonho de menino !
Durante os anos que passou na AFA pouco nos vimos ... até os fins de semana de que 
dispunha eram poucos, e as férias normalmente cheias com ''cursos complementares'' 
(fuga e evasão, sobrevivência, montanhismo, pára-quedismo, comando e liderança... sei 
lá que mais), mas ele lá andava, feliz da vida, em busca do seu sonho e eu, feliz por ele !
No final da Academia começaram as peripécias ... mais de metade dos elementos do seu 
curso que tiveram a oportunidade de ir tirar o ''brevet'' aos Estados Unidos eram mais 
modernos que ele ... pesem as desculpas oficiais ... era filho de ferroviário, que fazer ?
Acabou o curso de pilotagem e conseguiu o que queria, como era o primeiro a escolher, 
conseguiu colocação em Tancos, perto de casa (vivemos em Torres Novas).
Decidimos casar a 19 de Dezembro mas para seu espanto foi nomeado para serviço às 
Operações nesse mesmo dia e não fosse a Camaradagem de um Amigo seu, o nosso 
casamento teria sido celebrado por correspondência pois, segundo o seu Comandante à 
data, a pretexto nenhum se alteraria a escala depois do dia 15 de Dezembro ''para não a 
viciar em vésperas de Natal e Ano Novo''.
O tempo em Tancos foi pouco, dado o fecho da Base Aérea e mesmo aquele em que lá 
esteve colocado foi mais o que passou destacado em Porto Santo (15 dias cada 
destacamento) e em S. Tomé (dois meses cada Destacamento), aliás foi de S. Tomé que 
regressou para a entretanto extinta BA3, Tancos, indo de imediato para Sintra, para onde 
a Esquadra onde ele prestava serviço foi transferida.
Passamos a viver aos fins de semana, quando não estava a Transportar VIP’s, de Alerta 
(24 horas por dia a Evacuações Médicas e a Buscas e Salvamento), em Porto Santo, 
S. Tomé ou até mesmo na ex-Jugostávia ... lembro-me de um ano em que esteve cerca 
de sete meses fora - Destacado, e quando cá estava, vivíamos juntos nos poucos fins de 
semana que ele tinha livres; mas que fazer?  - era a carreira que ele tinha abraçado, de 
que tanto gostava e que o fazia feliz. Eu acabei por me habituar a um estado civil que 
chamava meio na brincadeira de ''solteira geográfica''. 
Chegamos a pôr a hipótese de nos mudarmos para perto da Base mas ainda seria pior 
''a emenda que o soneto'' pois ele continuaria a estar muito tempo fora, eu perderia o 
apoio da família e amigos (sempre vivemos em T. Novas) bem como teria que abdicar do 
emprego.
A vida que ele tinha na Esquadra, talvez porque tinha uma componente muito grande de 
missões humanitárias tais como evacuações médicas, buscas e salvamento e de 
cooperação preenchia-o mas eu, vivia de coração nas mãos em muito com receio do 
paludismo cerebral de S. Tomé mas essencialmente porque (e eu sabia-o e admirava-o) 
ele, como qualquer dos camaradas dele, por uma vida, não recuavam perante nada ... 
ainda me recordo de um dia estar em casa a assistir a um telejornal em que a jornalista, à 
varanda do aeroporto do Funchal, noticiava a desordem que se aí estava a viver com o 
elevado numero de passageiros à espera de aviões (dado o mesmo estar sem receber 
aviões há já três dias devido ao mau tempo) e ver aterrar por detrás, no meio de enorme 
tempestade, um ''Aviocar'' da Força Aérea, dirigir-se ao estacionamento e ''transferir'' 
alguém ferido para um ambulância  - era o meu marido que lá estava! E eu, era assim que 
vivia, com medo !!! Mas feliz por ele, que estava realizado na vida que abraçara... 
Nunca, até ao dia em que saiu da FAP o ouvi mencionar que um dia o faria. 
Continuando, em 1995 tivemos o nosso primeiro filho e em muito devido ao facto de o 
meu marido estar fora por tão longos períodos e durante tanto tempo no ano (é a primeira 
vez que ele vai ouvir isto) e por forma a poder educar convenientemente e dar ao meu 
filho algo parecido com uma família eu, engenheira zootécnica, que era à data co-respon-
sável pela produção de uma unidade de transformação de carne, resolvi prescindir da 
minha carreira (e de, já á data, quase 300 mil escudos por mês) e por eles, dediquei-me em 
exclusividade ao Lar; nunca me arrependi, entenda-se!
A nossa vida assim continuou (o Tiago fez 1 ano, o pai estava em Porto Santo; fez dois, 
estava em S. Tomé; fez três e o pai em S. Tomé...) sempre igual, pese embora os inúmeros 
problemas com a FAP que assombravam a nossa vida e em especial a do meu marido, mas 
que me vou escusar de aqui mencionar, por respeito ao meu marido que acha que são 
''problemas de família'' - como sempre lhes chama - e que devem ser tratados dentro de 
''casa'' e por ''casa'' entenda-se FAP, (em relação a isto apenas vou referir pediu uma 
audiência ao CEMFA, Sr. Gen. Alvarenga que, ao fim de inúmeras insistências durante 
cerca de três meses mandou responder que ''não estava disponível para o receber'').
Até que, em meados do ano passado o Luís, após ter estado dois meses Destacado em S. 
Tomé, seguido de dois em casa, outros dois em S. Tomé, uma semana em casa e 15 dias 
no Porto Santo chegou a casa revoltado pois queriam colocá-lo no Montijo. Tentou saber 
porque o tinham nomeado a ele e o seu comandante à data disse que tinha que ser alguém 
do curso dele. Explicou-me então o motivo da sua revolta, é que á luz de determinado 
Decreto-Lei ele, não querendo, seria o último a ''ser mexido'' pois era o mais antigo e com 
menos tempo de permanência na unidade. Mas nada feito; as leis na FAP valem o que 
valem ... e penso eu, que foi aqui que o ''copo'' (já bem cheio) começou a deitar fora.
Passado pouco tempo, a uma quinta feira, chega a casa e diz (para grande espanto meu) 
que por vontade dele não mais pegaria num avião da ''tropa''! Tinha chegado de um voo 
de Palma de Maiorca por volta da 20:30 e tinha encontrado um ''papel'' deixado em cima 
da sua secretária que não era mais do que um louvor de um ministro de um país 
estrangeiro, ao caso S. Tomé, concedido pelo seu trabalho em S. Tomé nos últimos 7 anos 
(em tantos anos do Destacamento da FAP em S. Tomé nunca um Oficial tinha sido 
agraciado) ... e o ''papel'' foi lá assim deixado .. nem sequer entregue lhe foi ... este 
desrespeito (que qualquer militar entenderá) deitou-o abaixo !!! Sexta feira regressou à 
base onde passou o fim de semana de alerta ... e segunda feira chega a casa e 
comunica-me ''Meti os papeis para sair da tropa ... não aguentava mais!''. 
Fiquei chocada - é o termo - nunca tinha sequer imaginado um dia vir a ouvir isto da boca 
do Luís pois sei que ainda hoje, a única coisa que vale mais que ele é a sua Pátria. Foi a 
maior surpresa da minha vida !!! Minha e todos os que de perto com ele privavam, 
camaradas inclusive ...
Também fiquei preocupada com ele, recolheu-se ao quarto, sei que chorou (outra faceta 
nova nele) ... ainda mesmo passado algumas semanas sem que ele soubesse o ouvia à 
noite acordado a soluçar baixinho ... sabe-se lá a padecer de quê ? Vivia ''sem chão'' ...
Mais preocupada fiquei com todos nós, eu tinha abandonado o meu emprego e o Luís 
saiu (sem antes ter equacionado tal hipótese), nada tinha, nem emprego em vista, nem as 
licenças de voo civis tratadas, foram dez meses até conseguirmos recompor a nossa vida.
Dez meses em que inclusive, muito valeram amigos dele que não conheço, mas a quem 
estarei eternamente grata. 
Agora alguém, a quem deixam ter responsabilidades sobre tantos homens e suas famílias, 
a troco de não se sabe bem o quê, propõe-se ultrapassar impunemente tudo e todos, até 
as leis e a Constituição do Estado Português estragando a vida de quem deu e durante 
tanto tempo, o melhor de si e os seus melhores anos pela Pátria e o Luís, como a maioria 
dos seus Camaradas não saíram por dinheiro, saíram por motivos bem mais graves que 
penso que um dia ele trarão a lume (mas isso terão que ser eles se o quiserem) ... talvez 
quando perceberem que em nada destroem a FAP (que ainda amam enquanto Instituição) 
e que talvez ajudem mais quando se resolverem a denunciar tais ''problemas de família''.
Para o Luís foram 13 anos de serviço efectivo (para mim foram muitos mais de ausências), 
17 com os aumentos a que teve direito, e dado que a lei prevê que ao fim de oito anos de 
quadro o militar nada deva ao estado pergunto-me muitas vezes e conhecendo-o como 
conheço, o que lhe passará pela cabeça quando tem que suportar certas injustiças e 
mentiras de que também é alvo ... não lho pergunto a ele porque sofre baixinho ... e é um 
espaço muito dele que nele aprendi a respeitar !
Eu sei que ao escrever isto estou a por o meu marido em nº 1 da lista para ser chamado 
ao serviço dado o clima horrendo de perseguição e  terror instalado mas por mim, desta 
vez, eu tinha que o fazer e eu sei que ele vai entender !!
Acabo a recordar-lhe a forma como os elementos do curso do meu marido decidiram 
fechar o seu livro de curso:

''Afinal há um capítulo no Homem
Que fala mais que a voz: É o silêncio dos céus.
Queremos ser a ponta de uma flecha
A VOAR na paz do livro que não fecha''

Foi com este espírito que se entregaram às vossas mãos e vocês destruíram tudo ! 
Não vos perdoo!

Patrícia Bento  

Uma última nota: como é que num estado de direito, se pode permitir que, alguém com 
poder, possa desafiar a Lei e a Constituição da República e chamar a prestar serviço 
nas Forças Armadas homens (como é actualmente o caso do meu marido), sindicalizados, 
filiados em partidos políticos e até integrados em listas eleitas pelo Povo Português (em 
que poderão em qualquer altura ser chamados a desempenhar o cargo para que foram 
eleitos) e exercendo cargos políticos nos órgãos dos respectivos Partidos, e ainda 
defender que isso é legal? Não entendo !
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